REMORSO

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Fala pessoal do blog. Tudo certo? Esta é minha primeira postagem. Meu nome é Jorge e vou tentar satisfazer sua sede de sangue com contos de horror breves e violentos. Boa leitura.





O Utilitário prateado disparava pela pista da estrada de terra a 155 km/h numa demonstração clara de imprudência. Um trovão estridente rasgou o firmamento iluminando o barro da estrada a frente de seus olhos. O motorista era Carlos Montenegro, renomado engenheiro chefe da Split engenharia – empresa holandesa vice-líder no mercado de componentes eletrônicos para equipamentos agrícolas. Sentiu uma estocada de remorso em seu peito ao se lembrar do motivo de sua fuga. Oh não, Carlos, por favor, não, a voz ribombava em sua mente. Qual fora o motivo de tanta violência mesmo? Por que quebrara o juramento feito no passado? Juntos para sempre. A frase outrora emocionante parecia distante agora. Sem importância. Dane-se, pensou Carlos. Agora não importava mais. O que estava feito estava feito.


Carlos pegou o invólucro de plástico e abriu com os dentes. Despejou cinco gramas de pó nas costas da mão e ajeitou com a mão livre antes de aspirar o veneno novamente para dentro de seu organismo. A cocaína acalmou lentamente seus nervos. Talvez ainda pudesse enxergar alguma esperança em seu lúgubre horizonte. Preciso acreditar nisso, pensou o homem atrás do volante fungando para limpar da mucosa nasal os resquícios da cocaína. A substância agia em seu cérebro aparentemente aprimorando seus reflexos. Seu sangue irrigava o coração numa velocidade incomum agora.

O vento sibilava na lataria do carro. Juntos para sempre.

No banco do carona podia-se vislumbrar um cobertor velho jogado sobre um objeto antropomorfo. Carlos retirou o cobertor revelando o corpo sem vida de Laura.

- Calma meu amor. – Disse ele acariciando-a com a mão livre. – Tudo vai ficar bem. Eu prometo.

Os olhos acinzentados, sem vida, pareciam encara-lo. Mas não podia ser possível podia? A chuva seguia despencando impiedosa e indiferente ao sofrimento de Carlos. Carlos voltou a prestar atenção na pista escorregadia. Aquaplanagem era um perigo real nessas condições de clima. Diminuiu a velocidade lentamente enquanto lutava com os pneus vacilantes do utilitário. Precisava seguir na estrada. Mas aonde aquela estrada o levaria mesmo? Seus pensamentos não estavam mais coerentes. Subitamente ele se deu conta de que não sabia mais o que estava fazendo. Seus músculos pareciam não obedecer a qualquer estimulo voluntario. Como se ele tivesse se convertido em uma marionete. A substância proibida no sangue aguçava alguns sentidos e parecia confundir outros. Nunca se sentira numa viagem tão intensa e tinha certeza de que aquilo não podia ser efeito da droga.

Olhou novamente para o lado. Ela estava morta não estava? Então o que tencionava fazer com o corpo? O que faria mesmo?

Ele examinou o ferimento na base do pescoço mais de perto. O sulco aberto na pele pelos repetidos golpes parecia ter parado de sangrar e se convertido numa fenda semelhante a uma guelra. Mas qual fora mesmo o motivo? Não importa. Ela provavelmente merecera. Que coisa horrível de dizer! Sentiu um aperto no coração novamente. Mas o que acontecera? Agora não podia se lembrar. Os pensamentos pareciam um turbilhão de indagações sem resposta e afirmações sem nexo. Um caleidoscópio de sentimentos conflitantes e incompatíveis todos parecendo aflorar e morrer simultaneamente.

Um átimo de segundo após os olhos de Carlos pousarem na pista de novo ele percebeu que iria morrer. Uma curva sinuosa o aguardava a menos de cinco metros. O carro patinou na pista enquanto Carlos tentava recuperar o controle. Se os pneus do utilitário fossem novos poderiam ter evitado a hidroplanagem devido ao desenho assimétrico, no entanto, os pneus desgastados haviam perdido completamente o contato com o solo quando Carlos tentava corrigir a trajetória. A banda de rodagem não conseguiu impedir a tragédia. Finalmente a pista acabou e o carro se projetou da estrada para uma queda desalentadora. O utilitário capotou sobre as rochas amassando como papel, os vidros fumês explodindo em fragmentos traiçoeiros para dentro do veiculo.

Uma força é igual ao produto da massa pela aceleração. Num capotamento o corpo esta sujeito a forças sendo aplicadas repetidamente de todos os lados sendo visto pelos especialistas em traumatologia como um dos piores cenários em acidentes automobilísticos. Carlos não teve tempo de processar a dor, mas sabia que seu corpo não resistiria a traumas tão intensos. O utilitário girava em torno de seu próprio eixo pela terceira vez quando os pulmões de Carlos explodiram. Carlos já lera a respeito. Aquele era o chamado efeito saco de papel. Ele instintivamente inspirara o ar e prendera o fôlego ocasionando o fechamento da glote. Semelhante a um saco de papel insuflado e depois estourado entra as mãos para pregar uma peça em um colega medroso, seus pulmões romperam e se inundaram de sangue. Sua cabeça foi atingida por algo solido e seus ossos fraturados penetraram na abobada craniana lançando uma dor agonizante por toda extensão de seu corpo.

O carro capotou pela ultima vez e aterrissou com as rodas apontando para o céu. A desaceleração fez com que Carlos parasse de se sacudir dentro do veiculo causando uma parada violentamente abrupta. Os órgãos do corpo humano possuem estruturas de fixação próprias e essas estruturas, embora fortes, não foram capazes de resistir a forças tão intensas de tração. O rompimento da aorta descendente, acoplada a coluna torácica, causou outro sangramento interno. A dor nem pareceu chegar ao cérebro de Carlos. Antes que pudesse perceber que sofrera um acidente grave, seu cérebro desligou.

Um caminhoneiro encontrou o local do acidente quinze minutos depois. Duas horas depois a policia rodoviária chegou ao local. O caso foi noticiado no jornal local numa pagina sem muito destaque. O curioso do caso, noticiara o jornalista, era o corpo da garota que parecia estar abraçada a Carlos após toda a confusão do acidente.

Juntos para sempre.


por JORGE GUERRA

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